Vista panoramica do morro Famatina

A comunidade de Famatina, cidade localizada na província de La Rioja, no noroeste da Argentina, deu este mês um exemplo ao mundo.

Organizada, pacífica, conseguiu bloquear o início das atividades da mineradora Osisko Mining Corporation. E, se tudo der certo – e vai – vão mandar para casa a empresa canadense que quer explorar ouro, e outros metais, numa região lindíssima aos pés da Cordilheira dos Andes.

Com uma altura de 6.250 metros acima do nível do mar, o local é há anos cobiçado por empresas estrangeiras por suas jazidas minerais. Mas os moradores da região lutam pela preservação de seu patrimônio natural como tigres.

Em 2007, mostraram força ao enfrentar a também multinacional canadense Barrick Gold. Com os mesmos lemas, “Com o Famatina não se mexe” e “A água vale mais que o ouro”, os vizinhos resistiram e conseguiram que a empresa abandonasse o projeto de exploração da mina.

Desta vez, os principais jornais e televisões argentinos mandaram enviados especiais à região, dando dimensão nacional ao problema.

Num janeiro de quente de verão, não é pouca coisa tirar o foco dos biquínis e das artistas de Mar del Plata para colocá-lo em outras mulheres. Porque são elas, guerreiras, líderes de suas comunidades, que tocam o movimento. Carina Díaz Moreno, Lucy Avila, Paula Dávila, Gabriela Romano, para citar algumas.

A mineração a céu aberto é uma das atividades mais contaminantes do mundo. Consume enormes quantidades de dinamite e água e emprega produtos químicos perigosos, como cianureto, em distintas fases do processamento dos metais. Polui o ar com o pó que gera, causando enfermidades respiratórias nas pessoas e asfixia de plantas, e tem grande chance de contaminar o lençol freático se houver vazamento de rejeitos. Isso, sem falar, é claro, que destrói totalmente a paisagem. As empresas mineradoras negam estes impactos.

Num misto de cara de pau e sem-vergonhice, o governador de La Rioja, Luis Beder Herrera, disse que a extração mineira em Famatina não provocará danos ao meio-ambiente e que a população está contra o projeto por simples “falta de informação”.

Detalhe: ele fez toda sua campanha política defendendo o contrário.

Mesmo com o mal estar social e os protestos, a atividade mineira não para de crescer na Argentina. Nos últimos dez anos, o numero de projetos cresceu 900% e o país teria competência para tornar-se, em 2020, um dos seis maiores produtores de ouro do mundo e um dos cinco maiores de prata e cobre.

A Lei dos Glaciares, promulgada em 2011, poderia parar esta febre, mas ela depende do Inventario Nacional de Glaciares, que começou neste verão e só ficará pronto em 2015. A legislação limita a atividade mineira em zonas de gelo.

Venho de uma região que já teve minas de cobre exploradas tanto a céu a aberto como em galerias. Hoje, depois que elas deixaram de ser economicamente viáveis, o que restou por lá é um buraco gigante cheio de água. Tem gente que quer transformar o buraco num ponto turístico! Eu preferia que tivessem deixado o morro no lugar.